Dra. Carolina Gonçalves - Saúde Digestiva e Cirurgia

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Canetas emagrecedoras e o sistema digestivo: efeitos colaterais e como reduzi-los

Canetas emagrecedoras e o sistema digestivo: efeitos colaterais e como reduzi-los

Oct 11, 2026 · @Someone

Por Dra. Carolina Gonçalves, coloproctologista · CRM-PR 18399 · RQE 35289

As “canetas emagrecedoras” funcionam, e o intestino é o primeiro a sentir. Náusea, vômitos, diarreia e intestino preso são os efeitos colaterais mais comuns desses medicamentos. A boa notícia: na maioria das pessoas eles são leves a moderados, passageiros e podem ser bem controlados com algumas medidas simples.

O nome popular se refere aos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic®, Wegovy®) e a liraglutida (Saxenda®, Victoza®), e à tirzepatida (Mounjaro®), que age também no receptor de GIP. São medicações aprovadas para diabetes tipo 2 e para tratamento da obesidade, aplicadas por injeção sob a pele, em geral uma vez por semana.

Neste post, explico por que esses efeitos acontecem, quais são os sinais de alerta e o que fazer para atravessar o início do tratamento com mais conforto.

Por que o sistema digestivo é afetado

O mesmo mecanismo que reduz a fome é o que causa os sintomas digestivos. Os receptores de GLP-1 existem no cérebro e ao longo de todo o tubo digestivo, e o medicamento atua nos dois lugares.

  • No cérebro, ele age numa região chamada área postrema, ligada à saciedade e também ao enjoo. Por isso a náusea é o sintoma mais frequente.
  • No estômago, o esvaziamento fica mais lento. A comida permanece mais tempo ali, o que dá sensação de estômago cheio, arrotos e, em algumas pessoas, refluxo.
  • No intestino, a motilidade e o tempo de trânsito mudam. Isso explica tanto a diarreia quanto a constipação, que é o efeito que costuma durar mais.

Os efeitos dependem da dose: aparecem sobretudo no início e a cada aumento de dose, e tendem a diminuir quando a dose se estabiliza.

Os efeitos mais comuns

Náusea é o sintoma mais frequente, seguida de diarreia, constipação e vômitos. Nos grandes estudos, a maioria dos casos foi leve a moderada e concentrada no período de aumento de dose.

SintomaTirzepatida 15 mgPlacebo
Náusea31,0%9,5%
Diarreia23,0%7,3%
Constipação11,7%5,8%
Vômitos12,2%1,7%

Fonte: estudo SURMOUNT-1, 72 semanas (dados do estudo).

Com a semaglutida 2,4 mg, a análise conjunta dos estudos STEP 1 a 3 encontrou náusea em 43,9% dos participantes, vômitos em 24,5% e constipação em 24,2% (Wharton et al., 2022). Mesmo assim, poucas pessoas precisaram interromper o tratamento por causa disso: cerca de 4,5% no STEP 1 e entre 4,3% e 7,1% no SURMOUNT-1.

Alguns pontos que ajudam a entender esses números:

  • A dose importa. Os sintomas são mais comuns nas doses usadas para obesidade do que nas doses para diabetes.
  • A constipação é a mais persistente. Ela tende a durar mais que a náusea ou a diarreia e é mais frequente nos estudos de obesidade.
  • O refluxo pode piorar no início do tratamento, sobretudo em quem já tinha a doença. A boa notícia é que o refluxo costuma melhorar com a perda de peso.
  • Os sintomas não indicam que o tratamento está errado. Na análise dos estudos STEP, quem teve e quem não teve efeitos digestivos perdeu peso de forma semelhante.

Efeitos raros e sinais de alerta

Complicações graves são raras, mas existem e precisam ser reconhecidas cedo. Um estudo publicado no JAMA em 2023 associou o uso desses medicamentos para perda de peso a um risco maior de pancreatite, obstrução intestinal e gastroparesia (estômago que esvazia muito devagar), quando comparado a outro remédio para emagrecer (Sodhi et al., 2023). A perda de peso rápida também favorece a formação de cálculos na vesícula.

Procure atendimento médico se tiver:

  • dor abdominal forte e persistente, principalmente se irradiar para as costas (pode indicar pancreatite);
  • dor do lado direito, abaixo das costelas, com ou sem febre ou olhos amarelados (pode indicar cálculo ou inflamação na vesícula);
  • vômitos repetidos, incapacidade de manter líquidos, tontura, confusão ou urina muito escura (sinais de desidratação);
  • barriga distendida, cólicas fortes e parada de eliminação de gases e fezes (pode indicar obstrução intestinal);
  • sangue nas fezes ou mudança persistente do hábito intestinal, que sempre merecem avaliação, use você o medicamento ou não.

Antes de exames e cirurgias

Como o estômago esvazia mais devagar, pode haver restos de alimento no momento da anestesia, o que aumenta o risco de aspiração. Desde 2024, uma orientação conjunta de cinco sociedades médicas americanas, incluindo as de anestesiologia e gastroenterologia, recomenda que a maioria dos pacientes mantenha o medicamento, mas que quem tem maior risco faça dieta líquida nas 24 horas anteriores ao procedimento (ASA, 2024).

Na prática: se você usa uma caneta e vai fazer colonoscopia, endoscopia ou cirurgia, avise o médico e o anestesista com antecedência. Eles vão orientar o preparo, que pode incluir dieta líquida, ajuste do preparo intestinal ou, em casos específicos, pausa no medicamento. Não suspenda por conta própria.

Como reduzir os efeitos colaterais

A estratégia mais eficaz é subir a dose devagar e ajustar a forma de comer. Especialistas resumem a abordagem em três passos: informar o paciente, aumentar a dose de forma gradual e individualizada, e tratar os sintomas de forma escalonada conforme a gravidade (Wharton et al., 2022; Gorgojo-Martínez et al., 2023).

Aumento de dose sem pressa

O aumento gradual da dose é a base da prevenção. Na prática clínica, o médico pode manter a mesma dose por mais tempo, ou até reduzi-la, se os sintomas incomodarem. Muitas pessoas que tiveram sintomas no início chegam à dose plena depois, só que num ritmo mais lento que o da bula.

Para náusea, enjoo e refluxo

  • Faça refeições menores e pare de comer assim que sentir saciedade.
  • Não coma sem fome só porque é “hora de comer”.
  • Evite alimentos gordurosos, frituras e comidas muito condimentadas, sobretudo nas primeiras semanas e após cada aumento de dose.
  • Modere o álcool e os refrigerantes e bebidas com gás.
  • Coma devagar e evite deitar logo após as refeições.

Para constipação

  • Aumente aos poucos as fibras: frutas, verduras, legumes, aveia, feijões e grãos integrais.
  • Beba água ao longo do dia. Com menos fome, muita gente também passa a beber menos sem perceber.
  • Mantenha-se ativo: caminhar ajuda o intestino a funcionar.
  • Se o intestino já era preso antes do tratamento, converse com o médico antes de começar. Laxantes ou amolecedores de fezes podem ser indicados, com orientação.

Para diarreia e vômitos

  • A prioridade é a hidratação: água, soro de reidratação oral e líquidos em pequenos goles.
  • Prefira refeições leves e menores, com mais frequência se for preciso.
  • Vômitos persistentes, com tontura ou fraqueza, pedem atendimento médico.

O que não fazer

  • Não aumente a dose por conta própria para “acelerar” o resultado.
  • Não use remédios para enjoo ou para o intestino de forma contínua sem acompanhamento. Se os sintomas persistirem por mais de um mês na dose de manutenção, o caminho costuma ser rever a dose.
  • Não use canetas sem prescrição e acompanhamento médico.

Quando procurar o especialista

Sintomas intestinais que persistem, pioram ou fogem do esperado merecem avaliação com um coloproctologista ou gastroenterologista. Isso vale especialmente para constipação que não melhora com as medidas acima, sangramento, dor anal ou hemorroidas que pioraram com o intestino preso, e qualquer mudança no hábito intestinal que dure mais de algumas semanas.

As canetas são uma ferramenta importante no tratamento da obesidade e do diabetes. Com acompanhamento médico, ajustes de dose e cuidados simples com a alimentação, a maioria das pessoas consegue atravessar a fase inicial com conforto e manter o tratamento.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica.

Referências

  1. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity (STEP 1). N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi:10.1056/NEJMoa2032183
  2. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity (SURMOUNT-1). N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038
  3. Wharton S, Calanna S, Davies M, et al. Gastrointestinal tolerability of once-weekly semaglutide 2.4 mg in adults with overweight or obesity, and the relationship between gastrointestinal adverse events and weight loss. Diabetes Obes Metab. 2022;24(1):94-105. Resumo
  4. Wharton S, Davies M, Dicker D, et al. Managing the gastrointestinal side effects of GLP-1 receptor agonists in obesity: recommendations for clinical practice. Postgrad Med. 2022;134(1):14-19. doi:10.1080/00325481.2021.2002616
  5. Gorgojo-Martínez JJ, Mezquita-Raya P, Carretero-Gómez J, et al. Clinical recommendations to manage gastrointestinal adverse events in patients treated with GLP-1 receptor agonists: a multidisciplinary expert consensus. J Clin Med. 2023;12(1):145. doi:10.3390/jcm12010145
  6. Sodhi M, Rezaeianzadeh R, Kezouh A, Etminan M. Risk of gastrointestinal adverse events associated with glucagon-like peptide-1 receptor agonists for weight loss. JAMA. 2023;330(18):1795-1797. doi:10.1001/jama.2023.19574
  7. Kindel TL, Wang AY, Wadhwa A, et al. Multisociety clinical practice guidance for the safe use of glucagon-like peptide-1 receptor agonists in the perioperative period. Surg Obes Relat Dis. 2024. doi:10.1016/j.soard.2024.08.033

Dra. Carolina Gonçalves Coloproctologista · Mestre e Doutora CRM-PR 18399 · RQE 35289 dracarolinagoncalves.com.br

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